Hipster pra cá, hipster pra lá, nossa que coisa de hipster, bem hipsterzinho mesmo… existem muitas variações para este termo que assombra e assola muitos de nós por aí.

Você faz uma coisa qualquer e é hipster, você fala de uma maneira diferente e é hipster, você descobre algo e quer compartilhar com amigos e é hipster, você expressa uma opinião que pega um desvio para o pensamento uniforme da nação e é hipster. Tudo e todos são e podem ser hipsters hoje em dia. Mas isso está errado.
Estudamos os mais antigos livros e escritos, consultamos os mais renomados escribas e conversamos com os mais cults sábios do universo que habitamos para explicar de uma vez por todas o que é um verdadeiro hipster. De onde vem? Do que se alimenta? Qual o motivo de serem seres tão odiados?

Começaremos pelo início – ainda bem, né – pela etimologia da palavra. A palavra hipster não tem uma origem muito definida, mas dizem as más línguas que tudo começou pelo hip e pelo hep.
Hip e hep eram gírias americanas do início do século passado, elas marcaram suas primeiras aparições no dicionário em 1904, quando foram impressas no Oxford English Dictionary. Mas o que elas significam? Elas são gírias para a expressão ‘in the know’ – que é basicamente um ‘sabe das coisas’.
“The Lizt Blog hip” ou seja “O Lizt Blog sabe das coisas”
Na década de 60 o professor malandriux David Dalby andava falando pra galera que muitas das gírias comumente usadas pelos americanos poderiam ser trackeadas até o oeste africano e, assim sendo, ele descobriu que hip vinha de hipi, e que hipi significava “to open one’s eyes” que é mais ou menos um “para abrir os olhos”.
Sempre lembrando que David Dalby foi até o Senegal atrás da origem do termo hip, e por lá se fala o Wolof.
Voltando um pouco para os anos 30 e 40 nós achamos referências de afro-americanos usando o termo hip para designar quem era “sophisticated, fashionable and fully up-to-date” (sofisticados, fashion e totalmente ligado).
Agora chegamos em Nova Iorque, o berço dos hipsters reais. É por lá que, nos anos 60, os jovens meio ricos que respiravam a contracultura de não viver em seus cubículos e não trabalhar em empresas fechadas e rígidas emergem como um movimento ativo, esses jovens eram chamados de hips – isso quer dizer que eles são “cool” e “in the know”.
E para falar sobre um grupo de pessoas hips logo começou a se usar o termo hipster – também se usava o hippie. Tudo isso se referia ao grupo de jovens que vivia e participava da borbulhante noite afro americana da época, que também pode ser chamada de beatnik nightlife.
Agora ouça essa obra com muita atenção na letra: Where do all the hippies meet? South Street, South Street… The hippest street in town”
The Orlons – South Street
Momento Telecurso 2000: Até aqui nós vemos que os hipsters são um grupo de pessoas muito ativas na noite, elas também estão por dentro das novidades da música e cumprem um papel de vanguarda para a moda da época.
Mas o que os hipsters realmente ouviam? Que ótima pergunta! O termo hip – que vemos ali atrás – era muito usado pelos músicos que faziam jazz na noite nova iorquina. Artie Shaw era um deles, ouve só que obra:
Artie Shaw – Concerto For Clarinet
Nosso querido amigo Artie Shaw foi quem disse que Bing Crosby foi o primeiro branco nascido nos Estados Unidos da América a saber das coisas.
Eis que chega a décadad e 40 amigos, e com ela uma mudança no gosto dos hipsters. Eles eram jovens, eles estavam conhecendo as drogas, eles viviam em bares escuros e conheciam as pessoas dos mais diferentes tipos, eles precisavam de músicas mais rápidas e dançantes. Assim o bebop e o hot jazz entraram nas playlists (se existisse isso na época) dos nossos amigos. Sempre lembre que eram os anos 40, a pilha era outra.
Miles Davis – My Funny Valentine
Aqui está um dos hinos hipster da época, ele basicamente diz que esta selvagem tribo gosta de hot jazz e também de dançar loucamente ao som desse pianinho lindo.
Harry “The Hipster” Gibson – Ferdinand
Bônus sobre a origem do termo: Se você já leu On The Road, de Jack Kerouac, deve ter pego em algumas partes umas alusões a hipsters. Nesse marco da literatura americana, e principal obra dos beatniks, Sal Paradise comenta que vê hipsters em um ou outro ponto do livro. Bom, ele realmente viu hipsters – afinal a obra se passa na época onde os reais seres dessa tribo ainda viviam, mas ele vê o final de uma era hipsteriana e pedaços de seres espalhados por todo território dos EUA.

Os hipsters que Kerouac cita no livro são quase mendigos. Eles são sujos e bêbados, mas tem um conhecimento cultural ótimo e sempre sabem onde ir para curtir um bom jazz. Podemos dizer que nessa fase Jack já se colocava como hipster e estava somente retratando sua própria situação, afinal Kerouac e Allen Ginsberg eram muito hipsters, mas isso eu nem preciso dizer, né.
Se você está aguentou este post até aqui, com certeza você já desvendou o mistério do surgimento do termo conosco, mas nós vamos além. Vamos tentar traçar a viagem desse tão irritante termo com a atualidade.
Momento Telecurso 2000 (2): hipsters são pessoas que curtem hot jazz, a vida noturna, álcool, drogas, dança e estão sempre por dentro de discussões filosóficas sobre a vida. Eles leem mais e fazem parte de uma vanguarda fashion da época. Eainda compõem uma subcultura nascida em Nova Iorque.
Com a perda de força do movimento beatnik o termo se perdeu. Não existe muitos registros dele pela década de 80, mas nos anos 90 ele retorna com força. Esse retorno indicava basicamente o mesmo uso de antigamente, mas existam muito mais músicas, muito mais livros, muito mais informações, muito mais tudo.
Existe um grande problema dos hipsters 90′s: eles não criaram nem se uniram por um determinado movimento, eles somente se apropriaram de coisas antigas (junto com isso nasce o vintage).
Os jovens da década de 90 pegaram os óculos e blazers dos avós, os Converse All Star da época de Chuck Talor – que você acha super atuais, mas saiba que foram criados em 1917, os casacos de lã das pobres vizinhas velhinhas indefesas e saíram usando isso tudo.

Qual a relevância de um movimento de jovens que não criou nada, mas somente se apropriou de coisas ‘dos outros’, e ainda prezava a originalidade da arte e da música? Por incrível que pareça, gigante.
Estes jovens copiões foram a base para pequenas revoluções que ainda vivemos hoje. Eles são indiretamente responsáveis pelo crescimento da música indie – e aqui falamos do indie~pendente. Eles sempre queriam coisas desconhecidas e difíceis de encontrar, como todo bom hipster.
Foi este pequeno renascimento dos hipsters que também trouxe uma nova força para brechós e ítens vintage. Esse sentimento de que tudo que é velho é melhor vem muito daí, por isso uma galera valoriza tanto os óculos que eram da avó e foram encontrados no fundo de uma gaveta de uma cômoda feita com madeira da época que era liberado derrubar tudo que era árvore por aí.

Mas voltamos aos hipsters.
Essa galera da década de 90 deu força para bandas independentes e desconhecidas crescerem, apoiou movimentos artísticos tão de garagem que ninguém nunca ouviu falar, fez parte de festas e do auge e queda de inúmeros estilos musicais. Não podemos esquecer aqui a entrada da internet no dia-a-dia de todos e as mudanças e facilidades que isso trouxe.
Bônus cinematográfico: Um grande exemplo de hipsterismo no cinema é o de Wes Anderson, o aclamado diretor cult mantém uma estética vintage e meio hipster em seus filmes. Desde o tom sarcástico e nonsense das piadas, até o figurino utilizado pelo atores, tudo constrói um ambiente perfeito para os atuais hipsters. Não os extremistas de hoje em dia, mas esses hipsters pseudo-cults que vemos por aí. Perceba abaixo.
The Royal Tenenbaums (2001) – Um dos melhores filmes de Wes Anderson
Hipsters (2008) – Filme russo que mostra um grupo de jovens tentando ser cool durante a guerra fria
O que nos traz aos dias de hoje. Hoje o hipster é alguém que sabe de tudo, que está atrás de tudo, que se veste de forma excêntrica e causa onde estiver.
Não se é um hipster se você não usar peças de roupa espalhafatosas e souber qual a banda que tocou ontem no clube mais sujo de Manchester. Hoje em dia os hipsters são constituídos por um pacote completo.
O que era conteúdo virou forma. Assim os hipsters de hoje são artificiais e só se relacionam com seu nicho.
Óbvio que não estamos generalizando. Existe toda uma gama de diferentes hipsters. Desde que você esteja por dentro de algo que está acontecendo, seja ~cool~ no seu meio e não ache que qualquer coisa fora do se nicho é blasé e sem sentido, você é um hipster. Afinal temos que lembrar que o início disso tudo vem lá do Senegal, com a expressão hipi, que significa “para abrir os olhos”.
Você é um hipster para abrir os olhos dos outros para o que há de bom culturalmente falando e não para vestir um cachecol com estampa de zebra e sair a-rra-san-do na boate que sempre toca a mesma coisa.
Me critiquem. Beijos.

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